AH, ESCREVO A FRIO!
O frio do gelo de minh'alma
- Capaz de derreter as estrelas -,
que brota metafisicamente dentro do
Mim que não é o dentro-de-mim físico.
Passei uma parte do fim de semana a sentir nada.
O Nada!
Mas, não é
O Nada da ausência de algo,
Que traduz-se portanto numa
Coisa que é coisa nenhuma.
É: O Nada Absoluto, da
Ausência Plena de todo ser e não ser - também.
Pois, Se não sou,
Sou "O Não Sou", portanto sendo e não sendo.
Estes são versos gélidos
- indiferentes ao multiverso -,
Paridos - prematuramente - da Não-Emoção Plena
- capaz de provocar todas e a todas.
O outro genitor de tal Quimera,
é a incomodação do Não-Sentir metafísico de minha própria
Existência fisicamente sentida.
Todos estes versos,
São - propositalmente ( caso se queira ) -
um total Ato Não-Pleno
( pelo uso da linguagem ),
de desacato, de um total desafeto poético
- como se odiasse cada linha que escrevo, a mesmo tempo amando-a eternamente por um segundo breve -,
nascido da desinspiração pura; impulso selvagem que é-me agora movendo-me
pelo sentimento metafísico do morrer, que tenho
a cada segundo do tempo que não é tempo
Que diferente passa à cada Um.
Frank Leber. ( persona do Francisco Maximiano da Silva )
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
10:19 AM
21.11.03
MESTRE, meu mestre querido!*
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstrata e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...
Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos, Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!
Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente. Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém. Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Por que é me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?
Por que é que deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?
Provera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso, Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixassses-me ser humano!
Feliz o homem marçano,
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.
A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.
Álvaro de Campos ( transcrito por Frank Leber )
* Poema que une Álvaro de Campos ao mestre, inexistente também, que lhe foi Alberto Caeiro. A emoção com que o relembra, sonhado, é, contudo bem autêntica na sua imaginação. ( Fernando Pessoa )
Nota: Em sentido de inexistência, Frank Leber - persona criada pela criatura ( esdrúxula ) a qual chamam, Francisco Maximiano da Silva - o é tão quanto as ( ou os? ) personas do Pessoa.
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
9:06 AM
14.11.03
Comentário do autor sobre os Posts que ninguém entende.
Gente, é modernismo - ou o cúmulo dele, se vocês preferirem -; como um quadro de arte moderna, cada um interpreta da maneira que lhe convir, sendo que esta maneira é - do meu ponto de vista - um retrato do seu "Si Mesmo", ou como diria Jung, seu Self. Além disso, vocês nunca leram Álvaro de Campos ( uma das personalidades literárias do - Fernando - Pessoa ) ?
Francisco Maximiano da Silva.
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
8:57 AM
11.11.03
Não-Poema de UM VERSO SÓ
Sou, os vários poderia ser que foi nenhum ..., logo: foi ( ou sou? ) algum.
Poema(?) de Frank Leber ( Persona do Francisco )
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
11:03 AM
5.11.03
Holos-Mnemony
Há memórias
Atemporais,
de temporais - algumas vezes, Within Temptation - enraivecidos,
há tempos esquecidos.
Há memórias
Lembradas no esquecimento, do qual
tenho - como tu - igual conhecimento.
Sentimentos são a memória do coração,
que não fica no peito.
Memória tenho - que nem mesmo, é do passado, presente ou futuro -
que, eu sou-te.
Pois tu, o Universo É.
Francisco Maximiano da Silva
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
11:18 AM
4.11.03
Perdão de quê?
Pai Nosso que está no céu
em fúria venho confessar-me
e antes que eu me desarme
já vou pedindo perdão
é que não sei falar de amor
só sei amar
é que não sei ter gestos de flor
só sei ser mulher
não sei como dosar meu humor
de forma a alegrar o mundo
sei apenas ser
ora divertida, ora carrancuda
e por mais que sua paciência
sempre me acuda
a dos outros nem sempre
eu evito abusar
venho assim afoita
porque de novo só me encontro
e no confronto comigo mesma
penso que apesar de errar
dei o melhor de mim...
CoRa soprou estas palavras ao vento às
9:23 PM
3.11.03
Tolerância zero, o
Remédio para o trote
Ensaio publicado por Roberto Pompeu de Toledo. Revista Veja, 21 de Abril de 1999.
*Nota: Há algumas inserções, colocadas por mim ( Francisco M. Silva ), que não alteram o sentido do texto.
Edison Tsung Chi Hsueh, um brasileirinho filho de imigrantes, poderia ter se convertido num dos símbolos das oportunidades que, apesar de tudo, o Brasil oferece. De família pobre, desimportante, chegada há menos de três décadas ao país, filiada a uma colônia ( a chinesa ) mais do que minoritária e uma religião ( budista ) idem, e ainda por cima tímido e desenturmado, mesmo assim conseguiu entrar na Faculdade de Medicina da USP, uma das melhores do Brasil. Em vez disso, virou símbolo da barbárie brasileira. O brasileirinho Edison, de 22 anos, não passou do primeiro dia de aula. Morreu de trote.
O caso tem sido noticiado na imprensa. No dia 22 de fevereiro ( de 1.999 ), primeiro dia de aula, houve, como é costume na faculdade, trote e churrasco à beira da piscina do centro acadêmico. Mais de 200 estudantes compareceram, entre veteranos e calouros. No dia seguinte, quando um funcionário - que não tinha curso superior - foi limpar a piscina, toda manchada da tinta com que tinham sido pintados os calouros, descobriu um corpo no fundo. Edison, que não sabia nadar, não sobrevivera à festa. Era seu, o corpo lá no fundo. Afogamento, diz o laudo do Instituto Médico Legal. Como?(!) Por quê?(!) Homicídio ou acidente? Mistério. Mudez. Entre os 200 estudantes presentes, ninguém sabia de nada, ninguém viu. Ou, se soube ou viu, não se dispôs a revelá-lo. O caso é intrigante a mais de um título, um dos quais a hipótese, apavorante, de um pacto de silêncio, versão tupiniquim e estudantil da ormetà mafiosa. Na semana passada a promotora Eliana Passarelli, com base no laudo do IML, disse ter concluído que houve homicídio e ameaçou indiciar pelo crime a totalidade ( 200 alunos ) dos presentes. O diretor da faculdade, Irineu Velasco, veio por sua vez a campo para afirmar que laudo não conduzia, necessariamente, à tese de homicídio. A meio caminho entre uma promotora talvez apressada na condenação e um diretor talvez apressado na absolvição, extraem-se duas premissas e uma conclusão. Primeira premissa: ninguém, não sabendo nadar, e não possuído por alguma urgência suicida, se joga numa piscina. Segunda: custa imaginar um acidente que passe despercebido num ambiente onde se encontram 200 pessoas. Donde se conclui, estando afastadas, pelo laudo, as hipóteses de colapso cardíaco, consumo de drogas ou bebedeira, que, seja por ação, seja por omissão, seja pelo clima geral de prepotência e intimidação, típico dos encontros entre veteranos e calouros, o brasileirinho Edison, como se afirmou no primeiro parágrafo, morreu de trote.
O que nos leva a outra conclusão - a de que chega de trote. Já cansou. Acumularam-se escândalos demais. Torturas contra calouros, à moda do regime militar ( Cruz das Almas, BA, 1991 ). Estudante morto a tesouradas ( Osasco, SP, 1991 ) Queimaduras por nitrato de prata ( Campinas, SP, 1994 ). Espancamentos, humilhações para todos os gostos. No ano passado ( 1998 ), em Sorocaba (SP), dois estudantes de medicina e um médico já formado ( que há com as faculdades de medicina? ) puseram fogo num estudante mais jovem que dormia, causando-lhe ferimentos atrozes. Diante de tal panorama, alguns clamam contra o "trote violento". É um equívoco. Como definir onde termina a brincadeira e começa a violência? A proibição tem de ser geral e irrestrita. Contra o trote, e ponto. Tolerância zero - este é o remédio.
Mesmo porque "trote violento" é redundância. Todo trote é violento. É uma violência cortar o cabelo, ou pintar o corpo, de quem não quer. Mesmo para quem quer, é violência. Pois, embora talvez não tenha consciência disso, está se submetendo a um jogo de dominação que reforça um dos piores traços da sociedade brasileira. Esta é sociedade, não nos esqueçamos, do "sabe-com-quem-está-falando?". A sociedade do "sou superior porque sou rico e você é pobre", "porque sou branco e você é preto", "porque moro no centro e você no subúrbio", "porque ando de carro e você é pedestre". Em suma, a sociedade da prepotência como prática contumaz de um grupo sobre outro. No trote, joga-se o jogo do "sou superior porque sou veterano e você calouro". Com isso, reforçam-se os maus instintos numa sociedade já de si antidemocrática e antiigualitária. E faz-se isso logo com a juventude. Os estudantes universitários costumam alardear ideais democráticos e são loucos por uma passeata contra o poder. Quem pratica o trote não tem moral para isso. As faculdades deviam proibir o trote em qualquer de seus graus e versões. Não fazê-lo é abrir mão da função de educadoras, anterior à de transmissoras do conhecimento ( já que o conhecimento por si só - como concordariam Bruce Lee e Rubem Alves -, não muda nada ). Penas duras deviam ser previstas para os transgressores. Processos contra as faculdades que não o fizerem, e onde venham a ocorrer trotes, devem ser incentivados. Caso algo se mova nessa direção, em conseqüência do episódio do brasileirinho de olhos puxados que se chamou Edison Tsung Chi Hsueh... bem, claro que isso é pobre consolo, agora que está tudo perdido para ele, mas vá lá o lugar-comum: caso isso ocorra, seu sacrifício terá servido para alguma coisa(?).
Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às
11:48 AM